Uma nova ferramenta incrível será adicionada à Estação Espacial Internacional, um sequenciador de DNA portátil. Os cientistas esperam que ele possa ajudar na busca pela vida no espaço e querem compreender porque estão nascendo fungos nas paredes da estação.

O sequenciador biomolecular, batizado de MinION, será enviado para a ISS nessa segunda-feira. O astronauta Kate Rubins irá usá-lo para tentar realizar o primeiro sequenciamento de DNA no espaço. Os cientistas da NASA Camille Alleyne, Aaron Burton e Sarah Wallace, estão por trás do projeto para descobrir o que mais o dispositivo pode fazer, tanto agora quanto no futuro.

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O sequenciador biomolecular. Imagem: Oxford Nanopore Technologies via NASA

A ISS é um ensopado de micróbios. Novos astronautas são enviados constantemente e é normal que eles levem diversos microrganismos. Uma das tarefas que os cientistas esperam que o sequenciador realize é investigar o que exatamente flutua pela estação. Até agora, a única maneira de descobrir isso é com um tradicional teste de cultura numa placa de Petri. O novo dispositivo, no entanto, é capaz de fazer análises do ar e da água quase que imediatamente.

“Toda a água [da ISS] é reciclada da urina, suor, etc” contou Sarah Wallace. Ela é microbiologista e gerente do projeto. “A água está sendo processada num local limpo de micróbios? Queremos saber em tempo real se o processador de água está funcionando.”

Monitorar a qualidade do ar e da água já é um grande passo. Mas algumas outras questões podem ser respondidas com o sequenciador. Por exemplo, o que são os fungos que os astronautas encontram nas paredes da Estação.

“No passado tivemos fungos visíveis crescendo na ISS e queremos saber que tipo de fungo é esse” disse Wallace. “É benigno ou algo com que devemos nos preocupar? Sabendo o que é, os microbiologistas podem recomendar o que deve ser feito a respeito deles.”

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Um estranho fungo que apareceu na ISS. Imagem: NASA

O sequenciador poderia responder também algumas questões sobre o impacto a longo prazo de se viver no espaço, ou até mesmo ser usado para diagnosticar doenças nos astronautas, já que eles tendem a ficar cada vez mais tempo nas missões.

Mas uma das aplicações mais animadoras do dispositivo só poderá ser vista futuramente, quando ele deixar a ISS e puder explorar o espaço. Os pesquisadores esperam um dia usá-lo para identificar vida, praticamente em tempo real, em outros planetas, inclusive em Marte.

“Por várias razões o sequenciador é bom para a microbiologia, ele é pequeno, leve e bem robusto, é um bom equipamento para mandarmos para outros locais em nosso sistema solar” disse Aaron Burton, astrobiólogo e líder do projeto. “Então se você quisesse ir para Marte e ver se há vida, você teria um pequeno dispositivo que poderia levar consigo e então começar a procurar.”

É claro que a vida pode ter múltiplas formas. O sequenciador ajudaria a identificar quais tipos de vida estamos levando conosco ou com robôs para o espaço. Mas outra possibilidade animadora seria encontrar vida nativa em outros planetas. Os pesquisadores já estão procurando saber como o sequenciador poderia ser modificado para lidar com vida alienígena, por exemplo, vidas que sequer tenham um DNA.

“Você não precisa sequenciar DNA, ele poderia se relacionar com moléculas”, disse Burton. “RNA é o que a gente tem na Terra, mas você também pode pensar em ter diferentes açúcares com diferentes bases nucleotídicas. Você poderia procurar por uma gama de informações diferentes a partir das moléculas e algumas pessoas já estão pesquisando sobre o sequenciamento de proteínas a partir do dispositivo, também.”

Mesmo que algumas dessas aplicações estejam num futuro distante e fisicamente longe do nosso planeta, os resultados das pesquisas dos astronautas poderia ter impacto por aqui. A ISS também funciona como um modelo, para aprendermos a conduzir operações em zonas remotas da Terra. Ter um sequenciador no espaço também abre possibilidades em laboratórios, com estudos que poderiam nos ajudar no entendimento dos genes e compreender como eles funcionam.

“Também existem benefícios para a Terra” conta Camille Alleyne, cientista associada ao ISS. “Entender, por exemplo, como ocorre a expressão genética na salmonela, poderia levar ao desenvolvimento de uma vacina. Existem aplicações no espaço, mas benefícios nas nossas vidas também.”

Mas por enquanto, o primeiro projeto do sequenciador servirá para ver se ele consegue ter uma boa performance no espaço. Se os resultados forem positivos, teremos grandes avanços.